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13 de abr de 2013

Deixa Chover



Ah a Raiva, esse sentimento é como uma sombra. É como a sensação térmica que sentimos no alto verão do Rio de Janeiro: uma camada densa pairando sobre nós e sua essência nos cercando por todos os lados.

Percebemos o início da Raiva como uma nuvem escura que se forma quando somos destratados, maltratados ou ignorados por desconhecidos, familiares ou amigos. Basta um toque de algum de nossos semelhantes, um toque errado, ou a falta do toque certo, para esse sentimento subir como uma nuvem pesada sobre nós.

E por que isso acontece? Como desenvolvemos essa nuvem, ou melhor como permitimos que essa nuvem fique pairando sobre nossa cabeça e por fim, reagimos mal a ela?  Na verdade, essa nuvem representa um fardo, algo que não suportamos carregar, mas também que não conseguimos identificar de imediato e nos livrar.

Podemos também comparar a Raiva com uma mochila muito pesada. Se quisermos carregar essa mochila, precisamos retirar dela os objetos mais pesados, do contrário, será melhor deixá-la quieta em algum lugar.
A Raiva tem enorme peso emocional. As nossas neurosas somadas as neuroses das pessoas que convivemos pode facilmente formar essa nuvem, esse peso emocional. Afinal, as neuroses estão por toda a parte. Nascemos dentro delas, pois são inerentes a própria vida, que por si só é conflitiva. Ninguém consegue parar a vida. Daí, nossa natureza inquieta. Carregamos a vida conflitiva e inquieta dentro de nós. Mas e aquela nuvem escura?

Embora estejamos vivos, somos diferentes da vida, nossos ritmos são diferentes. Podemos nos parar quando quisermos. Podemos relaxar. Temos ritmos parecidos com a natureza, e devemos aprender com ela. É notável que mesmo durante o alto verão do Rio de Janeiro, aquela camada densa de calor se esvazia e a chuva cai, impiedosamente nos aliviando, nos tirando do sufoco.

E igual a natureza devemos aprender a deixar chover. Aprender a deixar sair as neuroses. Começar a reconhecer e a retirar os itens mais pesados de nossa mochila. Exercitar a vontade interior de caminhar numa estrada mais leve. Buscar diariamente a nossa própria Paz.

E podemos ainda usar a nossa inquietude para aprimorar cada vez mais esse viver de aprendizado. Ir mais fundo e aprender alguma coisa importante para nossa própria vida. Com mais prática, aprender a cuidar de algo valioso para o outro. E assim, seguir libertando-se dessa nuvem escura.  

Acredite, pois, podemos deixar chover.

A tarefa árdua de escrever todos os dias


A cada dia nossa língua portuguesa vai ficando mais confusa. Agora não temos mais alguns acentos; mas como não tê-los depois de anos de uso? Como é confusa a transição. E nós adoramos uma transição. Gostamos de fazer a transição. Sem transição não vivemos. Se temos um bom relacionamento, fazemos tudo para mudá-lo. Se temos uma boa casa, fazemos tudo para modificar a sua decoração de tempos em tempos. Se temos um bom emprego, desejamos ardentemente mudar tudo nele. Precisamos da transição como do ar que respiramos.

Mas até onde? Por que existem as transições naturais da vida, e essas são, às vezes, difíceis de aceitar. Por que nos foram impostas. Por não tivemos o controle sobre essas transições. Elas apenas acontecem, como segue a vida, aquém dos nossos desejos e sonhos.

Por isso escrever se tornou tão árduo. Criaram transições incompletas. Algumas pessoas esqueceram que mudariam a vida de milhões de pessoas, mas mesmo assim insistiram. E vamos viver nova trasição – a nova regra ortográfica – a nova fase de confusão, onde não saberemos mais escrever durante um bom tempo.
Eu, que já evitava escrever muito, agora penso se vale a pena escrever sem os acentos. Eram nos acentos que eu me apoiava. Na dúvida, sempre acentuava. Era a minha segurança gramatical. Agora escreverei com mais cautela e, de antemão, as ideias começam a fugir juntamente com o acento que fora retirado.

Vejamos a transição da palavra “joia”. Será que as joias vão perder o seu valor? Como fica estranho saber que a minha joia não é mais aquela jóia de antigamente. O acento na palavra jóia era sua coroa, era especial, tornava a palavra distinta, elegante. Ficou pobre a palavra agora, virou classe média baixa.

Mas, assim caminha a humanidade, com todos nós ajudando as transições. Já passamos por muitas mudanças nessa vida, e essa transição será mais uma experiência que preencherá páginas e páginas no livro da história do Brasil. Mas no livro particular de cada um, a história será como cada um quiser escrever. Assim como nossa própria vida, com acento ou sem acento, com alegria ou infelicidade, com sabedoria ou teimosia. Assim somos nós.