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21 de out de 2012

PAI

PAI 
Não tenho lembranças da infância com você.
Tenho lembranças criadas pelos relatos de alguns.
A infância correu solta pela rua, tua ausência eu não sentia.
Na adolescência comecei a te procurar.
Encontrei um ser humano cansado, suando pelo pão nosso de cada dia.
As conversas foram poucas, espirituais e vagas.
Faltou-me coragem para se aproximar de ti.
Faltou-te o hábito de se aproximar de mim.
Vivíamos lado a lado, sem se tocar, nem mesmo com o olhar.

Cresci te respeitando, mas muito carente de você.
Quando sentado, conversávamos apenas banalidades.
E nem lembro o tema dessas poucas trocas de palavras.
Quanta coisa gostaria de ter te dito.
Quanto sentimento gostaria de ter te mostrado.
Mas havia um distanciamento. Um abismo.
Quando deveria haver apenas AMOR.

Acredito que nos amávamos, de longe, como num sonho.
Ao pensar em ti vem a lembrança de momentos agradáveis.
Mas eu buscava algo mais profundo.
Queria carinho, beijos, afagos, demonstrações físicas de afeto.
Mas isso não fazia parte de seu tempo, de sua história de vida.
Aliás, eu nunca soube nada de sua vida.
Só sabia que realmente amavas tua companheira, a minha mãe.
Que enfrentastes o mundo para ficar com ela.

Penso que te via como o homem que eu queria para mim.
Aquele que iria desbravar mundos e povos por meu amor.
E assim cresci, embalada no conto de fadas da tua história.
E nunca esse homem conheci.
Nunca esse amor vivi.
E foram tantas decepções, tantas desesperanças.
Que nem mesmo sei como sobrevivi.

Um dia, você partiu desse mundo e levou embora todas as minhas esperanças.
O homem que um dia sonhei não refletia mais no meu espelho.
O espelho havia quebrado.
Os pedaços ficaram espalhados por todos os lados de minha vida.

E eu nunca tive coragem de olhar para trás.
Passei a sonhar com você quase sempre.
E a cada sonho tentava me esconder de ti.
Tinha medo de teu fantasma.
E você continuava mais distante ainda.
Até mesmo nos sonhos a distância física existia.
Tremia de medo, pois achava que não iria conseguir seguir adiante sem você.
Que lógica tinha isso?
Como podia morrer por alguém que se apresentava tão distante?
Seria alguma coisa espiritual?
Seria apenas o meu desejo de viver o teu conto de fadas?
Aquele conto de fadas que sempre li em revistas de amor na adolescência.

Minha vida estava acabada.
O vazio que existia jamais seria preenchido.
O amor platônico continuaria cada vez mais platônico.
Não pensei que isso refleteria em toda a minha existência.
Acreditei que com o passar do tempo o vazio fosse preenchido.
E em sonho você trouxe minha filha.
E em sonho viestes conhecê-la depois de nascida.

Então, um dia, você desapareceu totalmente de minha vida.
Nem em sonho te via mais.
O vazio que me acompanhava só aumentou.
Que sentido tinha aquele amor?
Sem a tua presença nem mesmo nos sonhos?
Meus medos não permitiram-me se aproximar de você em sonhos.

Hoje eu entendo que tua vida pertencia a outra época.
Hoje eu entendo que eu mesma vivia em outra época.
Uma época de mudanças profundas em nossa cultura familiar.
Uma época onde houve muita luta em tua vida.

Eu era rebelde. E o Amor que sentia por você me tornava mais rebelde ainda.
Por sentir que esse Amor não era retribuído por você.
Eu precisava ouvir que você me amava.
Como não ouvia, precisava sentir seu contato físico, seu abraço.

Mas nada disso aconteceu.
E vivi com esse vazio.
E com a dúvida: você me amou?
Sim. Eu sei que amou.
Você demonstrou isso em sonho enviado a minha mãe.

Lembro do primeiro sonho que tive depois que você partiu deste mundo.
Você disse que a minha vida iria mudar muito daquele momento em diante.
Disse que eu precisaria ser muito, mas muito forte, para enfrentar o que viria.
E eu achava que o que viria seria algo material.
Jamais pensei que seria esse turbilhão emocional vivo até hoje.
Jamais pensei que a tua falta eu sentiria quase como uma sentença de Morte.

Atravessei muitos meses atormentada com os sonhos onde você aparecia.
Você sempre aparecia me cercando nos arredores de minha casa.
Por que eu sempre tive medo do seu fantasma.

Mas se eu tivesse tocado o seu AMOR.
Se o seu AMOR tivesse me tocado.
Eu não teria esse medo.
Eu não teria medo algum.
E viveria em Paz.

E hoje eu quero, eu preciso me aproximar de você.
Será que conseguirei ultrapassar a barreira da materialidade?
Será que conseguirei te tocar como sempre quis?
Te acariciar como sempre quis?
Quebrar a distância que havia entre nós?
Será possível?
Preciso sonhar com você novamente.
Preciso que voltes aos meus sonhos.
Preciso que me abraces em sonho.

Então, vou adormecer todos os dias chamando por você.
Que se danem os meus medos, que se danem os obstáculos.
Não há obstáculos para o AMOR.
Assim aprendi, e acredito nisso.
Eu te AMO, Pai. Sempre amei.
Eu quero tocar o seu AMOR.
Eu quero que o seu AMOR preencha a minha vida.
Eu quero que o seu AMOR ilumine os meus dias.
Para que o seu AMOR me ensine novamente a viver.

Eu te amo, eu te amo, eu te amo.
Eu sinto muito, eu sinto muito, eu sinto muito.
Me perdoe, me perdoe, me perdoe.
Muito obrigada, muito obrigada, muito obrigada.

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